O conceito deste tipo de habitação parte de um espírito de reciclagem combinado com a utilização de energias renováveis, com o que se pretende, além de torná-las muito econômicas, ajudar a descontaminar e a diminuir o impacto sobre o meio ambiente e permitir sua integração ao mesmo.
Em um jornal londrino, recentemente, vejo a notícia de que a Inglaterra -Brighton e em Fife, Escócia- converteu-se no primeiro país da União Européia em aceitar, oficialmente, a edificação de casas ecológicas elaboradas a base de materiais de rejeitos (Lixo), conhecidos como “Earthships” (do inglês "barco terrestre", "navio de terra", ou apenas eco-casas) feitas completamente de material reciclado: garrafas, latas de alumínio e lataria de automóveis, dentre outros.
O "Earthship" é um modelo arquitetônico de habitação autônoma desenvolvido há mais de 30 anos a partir dos trabalhos originais do arquiteto norte-americano Michael Reynolds, baseado principalmente em quatro elementos:
1- A orientação da casa para o sul (Nota do Tradutor: No hemisfério sul, caso do Brasil, entenda-se para a face Norte) -válido para o hemisfério norte e onde há estações- com um projeto que permita uma ótima captação da luz e do calor solar. Esta energia passiva é obtida com a construção de muros nas faces Norte, Leste e Oeste, e uma face Sul inteiramente aberta ao exterior mediante cristais.
2- Utilização de latas usadas, colocadas em posição horizontal, como se fossem grandes tijolos, recheadas de terra compactada, para as paredes externas da casa, resultando numa parede incrivelmente estável, com os benefícios da massa térmica que permite manter dentro da habitação uma temperatura média constante entre 15 e 20o. C. Trata-se do princípio pelo qual o calor se transfere das áreas quentes às frias de maneira que se tornam frescas durante o dia e quentes à noite. Para as paredes internas, utilizamse latas e garrafas.
3- Utilização de energias pouco contaminantes, como a solar e do vento para o consumo doméstico, que, além de ser baratas e "limpas", tornam possível a construção do "earthship" em qualquer lugar por sua
independência das redes de abastecimento habituais.
4- Instalação de sistemas de captação e armazenagem de água, assim como o tratamento de águas residuais graças a um sistema de filtros e drenagem, o que minimiza e melhora o consumo.
Um aspecto bem importante é que este tipo de construção utiliza em torno de 10% da energia que normalmente demanda a construção de uma habitação, se levamos em conta a empregada em cada um dos
processos de transformação dos materiais de construção (exemplo: cimento, cerâmicas, plásticos...) e a correspondente à calefação, resfriamento e iluminação de uma residência. Vale a pena recordar que, no mundo, 50% dos gases que aquecem a atmosfera são produzidos pela indústria da construção, mais do que por aviões ou automóveis.
Isso me leva a pensar a "vantagem" que, nesse sentido, os países em vias de desenvolvimento levam sobre o velho continente: em nosso caso, as habitações recicladas são o "pão de cada dia". Há muitos anos e sem licença são construídas diariamente em nossas cidades, conformando bairros de miséria e invasão, onde paus, latas e papel acartonado, entre outros, têm uma nova oportunidade de converter-se em uma casa - nada digna-, para tantas famílias pobres e sem teto, situação agravada com problemas como o do "deslocamento forçado" muito frequente, nos últimos anos, na Colômbia, em razão do conflito armado. Para se ter uma ordem de grandeza, vale a pena recordar que, no caso de Ibagué, com uma população em torno de 400 mil habitantes, nos últimos três anos chegaram cerca de 3.000 famílias deslocadas -15.000 pessoas-, despojadas de suas terras no campo, correndo para salvar suas vidas e em busca de um novo projeto de vida, um teto seguro e trabalho em uma cidade onde o desemprego anda na casa dos 25%.
Para finalizar, vale a pena recordar que nós temos à mão um recurso natural, abundante, econômico, renovável, que é a guadua -nosso bambú-, com o qual se podem construir casas muito bonitas e econômicas.
Fonte: EcoPortal.net (publicação autorizada)
Arquiteto Mario Alvarez Urueña*
(Tradução: Idhea – Instituto para o Desenvolvimento da Habitação Ecológica)
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